[Em Cima do Lance com Paulo Leandro] Ypiranga, patrimônio cultural dos baianos
![]() |
| Por: Paulo Leandro |
Esta semana fui gentilmente lembrado por uma equipe
de formandos da Faculdade Social da Bahia para falar sobre um dos meus
temas esportivos preferidos: o Ypiranga, o clube canário, o Mais
Querido, como foi conhecido um dia.
Como não
estava em Salvador, o papo foi todo via skype, esta preciosidade da
tecnologia que vence distancias brincando. Basta conectar, botar o fone
de ouvido, o microfone, e pronto. Tudo certo e ainda dá pra ver quem tá
do outro lado.
Algumas datas eu não lembrei.
Por isso, é bom estar perto da pilha de papel velho que tanto estressa
as donas de casa e as crionças. Mas pode ser que se aproveite uma ou
outra aspa para o Trabalho de Conclusão de Curso dos meus novos amigos
jornalistas.
Disse-lhes da importância do
Ypiranga como o clube que decidiu abrir as portas às pessoas que curtiam
o jogo de bola, mas só conseguiam assistir porque o futebol, até 1912,
era coisa de gente rica, e só.
Enquanto o
Victória, representante da elite esnobe, retirava-se da liga, por não
concordar com a mistura, o Ypiranga assumia a condição de clube líder do
futebol baiano, ao dominar a cena na chamada Liga dos Pretinhos.
POPÓ
A
Liga ganhou este nome porque aceitou os colored, como a imprensa da
época estigmatizava as ‘pessoas de cor’, os negros, tinta que confere a
Salvador a denominação de Roma Negra, principal cidade africana fora da
África.
A Liga dos Pretinhos sucedeu em 1912 a
Liga dos Brancos e instituiu uma nova fase no futebol de Salvador, ou
refletiu a demanda de novos clubes formados em diversos bairros da
cidade. O Ypiranga, a partir de 1914, é o clube que representa esta
mudança.
Daí o ‘Mais Querido’. Tinha soldado,
tinha artesão, tinha comerciário, tinha estivador, enfim, pense aí em
classe operária jogando bola, e esse era o Ypiranga. Mais ou menos o que
representou o Vasco, como ruptura do antigo paradigma no futebol do
Rio.
Este Ypiranga nos deu Popó, tido até hoje
como o principal craque da história da Bahia. Começou aos 14 anos e
jogou em todas as posições. Os frequentadores da assistência no Campo da
Graça (ainda não se pode falar de torcida) faziam versos para Popó.
O
pesquisador Aloildo Gomes Pires, que também foi ouvido para o TCC, tem
um livro sobre Popó, editado com apoio da Federação Bahiana de Futebol,
gestão Virgílio Elísio da Costa Neto.
GRANDE
A
importância do Ypiranga para a superação de teorias racistas que
consideravam o Brasil impuro, incapaz, indolente, por conta da mistura
de etnias, merecia uma maior atenção por parte dos pesquisadores.
As
faculdades de um modo geral, e seus estudantes e professores, vêm
reduzindo a dívida que a academia tem com o desporto, por conta de um
antigo conceito de alienação interpretado como uma pecha, uma doença, um
vírus que os esportes espalham no mundo.
De
parabéns a equipe da Fsba por registrar, ainda que rapidamente, no
formato de um programa de rádio, a história do Ypiranga, 10 vezes
campeão estadual, e que luta bravamente para retornar à primeira
divisão.
Não sei se é possível, entendo que
sim, mas o Ypiranga é patrimônio imaterial da Bahia, assim como o
acarajé e a medida do Bonfim. Poderia ser tombado e tratado como
entidade cultural. A volta do Ypiranga, quem sabe, disposto a virar
terceira força, seria uma boa notícia.
Vamos
todos torcer para o Ypiranga subir. Não é fácil juntar mil, mil e poucas
pessoas, num sábado à tarde, pagando 10 reais para ver um time que há
tanto tempo está longe das conquistas mais relevantes. O último título
foi em 51. Pra você ver como é grande o Ypiranga.


Comentários
Postar um comentário